viagens
Perito Moreno

Nossos últimos dias na Patagonia ficaram reservados para El Calafate. Voltamos de Torres del Paine em seis horas, mesmo com um vento soprando bem mais de 100km/h a favor. O tão conhecido vento deu o ar da graça, arrastando o carro mesmo ele estando parado.

Acordamos cedo e nos dirigimos ao porto já dentro do parque para subir a bordo do barco que nos levaria até a outra margem do lago onde faríamos a caminhada no glaciar. Dezenas de turistas divididos em grupos falando inglês ou espanhol. Tudo muito organizado.

Por duas horas caminhamos sobre o gelo secular e, sem dúvida, foi um dos pontos altos da viagem.

Encerrado o passeio no gelo, fomos até as passarelas admirar o glaciar de frente. Chama a atenção o tamanho da estrutura para visitação, a organização do parque e o atendimento dos guarda-parques. Não há como negar que eles estão muito à nossa frente nesse quesito. Enquanto aqui as áreas de preservação agonizam pela falta de verba e/ou má administração e tudo é proibido, lá os turistas chegam do mundo inteiro e encontram uma bela estrutura à disposição.
Torres del Paine
- Primeira vez em Torres del Paine?
- Não, provavelmente a última!!
O diálogo acima é fictício, mas poderia muito bem ter ocorrido. Não aconteceu por que os guardaparques chilenos não fazem a mínima questão de se mostrarem solícitos e também por que o parque é muito lindo e merece uma outra visita. No inverno, vamos deixar claro.

Saímos de El Chaltén no dia 30, uma quarta-feira, e rodamos os pouco mais de 500km ao longo do dia. Passamos por Calafate para almoçar e abastecer, perdemos algum tempo nas aduanas e chegamos no parque por volta das 19 horas. As surpresas vieram à rodo. Primeiro por que aquilo que eu imaginava ser uma portaria com informações e alguma atenção para o turista é um casebre atendido por um cobrador e um policial muito mal-humorados. Ficamos sabendo que o ingresso, que não é barato, dá direito a três dias e esse primeiro dia conta inteiro, mesmo entrando nesse horário. A segunda surpresa foi saber que nosso hotel fica fora do parque (500m) e, portanto, no dia da nossa saída (2), não poderíamos passar por dentro dele, mesmo que estivéssemos indo embora e esse fosse o caminho natural.
Rodamos mais 50km até chegar ao hotel por uma estrada de rípio, que embora em boa condições, margeia o lago de maneira assustadora sem proteção alguma. Para completar, as vans dos hotéis que fazem o transporte dentro do parque dirigem a tal velocidade que tornam o passeio, nosso e dos seus passageiros, um banho de adrenalina.
Chegamos no hotel e continuaram as surpresas. Nossas reservas não foram encontradas, mesmo apresentando todos os comprovantes e o hotel estava lotado (é…com agente de viagens também acontece isso). Descobrimos que no sistema deles estavam nos aguardando dia primeiro, mas o problema foi solucionado em menos de duas horas. Nem tomamos banho e fomos direto jantar, pois faltava meia hora para o encerramento. Mesmo ainda dentro do prazo, não tinha mais comida. O chef tentou fazer alguma coisa para nós, mas estava intragável. Mesmo assim, debitaram os quatro jantares na nossa conta. Para completar a noite, banho com água fria!
Nos dois seguintes rodamos pelas atrações do parque. Certamente rodamos mais de 300km naquelas estradas empoeirentas que me deixaram completamente congestionado. As vias são mal sinalizadas, os guardaparques não tem uniforme e mal se levantam da cadeira para conferir seu ingresso, a guarderia central, que tem algumas informações para turistas, estava totalmente no escuro, os preços são para turistas europeus e uma das trilhas (das torres) estava coberta de esterco e moscas, pois também serve de trilha para cavalgadas. No parque vi placas de agradecimento à Comunidade Européia pelo dinheiro recebido, mas não parece que esteja sendo bem empregado.

Toda área tem um micro-clima muito característico e as nuvens não abandonam a região. Nem vimos céu azul. Conversando com o pessoal, descobrimos que o inverno é a melhor época para fotos, pois o céu está limpo e não há vento, incansável nestes meses. As fotos ficaram restritas a guanacos e quedas d’água. Do meu quarto tinha visão geral da montanhas do parque. No dia primeiro cheguei a cordar bem cedo e coloquei a G9 para fazer um timelapse pela janela, mas com tantas nuvens, não valeu o investimento.
Depois de uma longa choradeira, fomos liberados no dia 2 a sair por dentro do parque, o que só aconteceu por que ela deve ter se enchido da minha cara. Com ventos de mais de 100km/h, seguimos de volta para Calafate para a última parte da viagem.
Amanhecer em El Chaltén
O timelapse acima foi feito usando a G9 com um frame a cada dois segundos durante o amanhecer. Prendi a câmera com fita crepe junto à cerca enquanto eu fazia as outras fotografias. A grande mancada foi não ter preparado a G9 como eu fiz com o resto do equipamento. Na correria não conferi e o ISO ficou em 400, o que para uma câmera assim é um desastre. Infelizmente não tive muito tempo nem conhecimento para fazer uma abertura mais caprichada. Montei tudo no Photoshop e usei as ferramentas que conheço. Pelo menos, não vai ficar guardada no hd.
El Chaltén (3)
Ao sair da pizzaria, notamos que o céu estava totalmente limpo. Dirigi até a fazenda para pegar o equipamento e, mesmo passando da meia-noite e fazendo frio, fizemos algumas fotos em longa exposição. Com a lua cheia, conseguimos um céu bem claro.

Menos de quatro horas depois, já estava mais uma vez cheio de roupa e na beira da estrada para então finalmente captar o amanhecer com céu aberto. Depois de tantos dias na cidade, achei que nem teria mais essa chance, mas nos últimos momentos ela apareceu. Antes das seis horas da manhã o céu já estava nublado e eu de volta à cama, pois passaríamos o dia na estrada até Torres del Paine.


El Chaltén (2)
Na segunda-feira acordei por volta das 4:30 para fazer algumas fotos do amanhecer, na esperança de encontrar as montanhas visíveis. A cobertura de nuvens seguia, o que me trouxe de volta à cama após poucas fotos. O mais curioso foi encontrar outros dois fotógrafos/cinegrafistas em pontos parecidos da estrada esperando pelo mesmo espetáculo.

Nesse dia, optamos por fazer uma caminhada até os acampamentos do Fitz Roy, mas acabamos seguindo adiante e subimos até a Laguna de Los Tres. Tal passeio foi um tanto cansativo, uma vez que levamos mais doze horas para completá-lo. Vento, frio, neve, muita nuvem e nada de enxergarmos os cumes.


No dia seguinte seguinte, optei por não acordar ao amanhecer e, é claro, pela primeira vez os cumes se mostraram. Pulei rapidamente da cama ao perceber a oportunidade de fotos, joguei tudo dentro do carro e fomos para o ponto na estrada que eu havia marcado de acordo com que havia observado. Rapidamente fiz mais de uma centena de fotos, desde planos fechados até panorâmicas com mais de 40 imagens.

Nesse dia foi a vez de caminharmos em direção ao Cerro Torre. Voltamos cedo e acabamos curtindo nosso último dia na agradável cidade. Ao longo de sua principal avenida, Chaltén tem uma série de pousadas, agências de viagens e restaurantes. Puro charme no fim do mundo.
Primeiro fomos comer alguma coisa na Wafleria, lugar perfeito para quem volta de uma caminhada e precisa repor as energias. Repleta de revistas de montanhas e mapas, disfrutamos cafés e chocolate quente. Não distante dali tem a Marcopolo bookstore onde comprei mais alguns livros para minha coleção.
Por estar muito no sul, anoitece tarde, por volta de onze horas. Nosso último jantar foi naquele que virou meu restaurante favorito no mundo: Patagonicus. Uma pizzaria atendida pelas filhas de Cesarino Fava, o primeiro cara a demonstrar real interesse no Cerro Torre e atrair a atenção de todos para a montanha. Ele participou na controversa primeira escalada de 1959, mesmo sem ter os dois pés, amputados em um resgate no Aconcágua. As paredes do restaurante são repletas de fotos da expedição de 1959 e 1970, onde tanto Fava como Cesare Maestri participam. Não é permitido fazer fotos no local, mas dei um jeitinho. Pelo reflexo do vidro é possível ver as imagens expostas na parede. Enquanto comíamos nossa pizza, pelas janelas do restaurante víamos os cumes serem cobertos pela noite. Inesquecível.


El Chaltén (1)
Desde que andei pelo Aconcágua há mais de quinze anos, sonhava em conhecer El Chaltén. Poder ficar cara a cara com algumas das mais belas montanhas do mundo e visualizar todos as histórias que havia lido há muito tempo ocupava minha mente. No vôo, reli toda a controvérsia da primeira escalada do Cerro Torre e matérias sobre outras vias nessa que é uma das mais difíceis montanhas do mundo.

O domingo, embora ensolarado, tinha ainda todos os cumes escondidos por nuvens. Pegamos o carro e seguimos por uma estrada de rípio até o Lago del Desierto, motivo de disputa por Argentina e Chile e principal razão da fundação da cidade. Logo no início da estrada paramos no Chorillo del Salto, uma queda d’água no arroio que desce das montanhas. Subimos uma trilha ao lado da cascata e logo encontramos outras quedas, igualmente bonitas.

A estrada até o lago tem pouco menos de 40km, serpenteia pelo vale e depois por entre montanhas nevadas. Sem dúvida, um belo passeio que acabou nos ocupando o dia inteiro.

Viagem pela Patagonia
Embarcamos os quatro na tarde do dia 25 para Buenos Aires. O dia começou tumultuado, pois passei a madrugada no pronto socorro acompanhando meus pais que sofreram um acidente no taxi que os transportava para casa após nossa celebração natalina. Eu estava cansado e tinha bebido um pouco, então concordei que eles fossem de taxi para casa. Parece que o motorista bebeu bem mais e ainda dormiu no volante, pois bateu em alta velocidade em um carro parado no meio de uma reta. Por sorte, nada muito mais que um nariz quebrado da minha mãe, um grande susto para todos e poucas horas de sono para mim.
De Buenos Aires partimos cedo no sábado para chegar em El Calafate por volta do meio-dia. O aeroporto ao lado do lago Argentino fica a uns 20km da cidade e está totalmente escondido pelas colinas ao seu redor. Não se enxerga nada em volta. Dia ensolarado, pegamos o carro e rumamos direto para cidade para comprar algumas roupas e almoçar. Nosso destino nesse dia era El Chaltén, pequena cidade cerca de duzentos quilômetros ao norte.

Com o câmbio favorável, mais uma vez fizemos uma ótima refeição a preços módicos e deixamos Calafate com uma excelente impressão.

Rumamos norte por estradas asfaltadas, sempre bem sinalizadas e praticamente desertas. Os mirantes estão sinalizados adequadamente para fotógrafos. Próxima a El Chaltén, a placa mostra uma câmera de fole daquelas de grande formato.

À medida que nos aproximávamos do nosso destino víamos que as nuvens junto à cordilheira não iriam ceder e mal enxergamos as montanhas. Ficamos hospedados na Estância La Quinta, uns dois quilômetros antes de chegar à cidade. Recepcionados por Alfredo, ouvimos histórias sobre a centenária fazenda e a promessa de que o tempo estava melhorando. Lentamente, mas estava.

Nossa escolha foi boa. A pousada é agradável e Alfredo foi incansável em fornecer dicas. Dias depois, circulando pelo restaurante, descobri fotos, mapas e autógrafos da equipe francesa que escalou o monte Fitz Roy pela primeira vez em 1952. Material digno de museu nas paredes da pousada.

Fora de Rota

Fora de Rota é o nome do livro de Paulo Pires no qual eu fiz o trabalhao de tratamento das imagens. É um relato crítico e por vezes polêmico sobre a situação de onze países que, na sua maioria, não frequentam as listas dos destinos turísticos convencionais. Entre outros, tem destaque no livro o relato das condições de vida atual de chineses, vietnamitas, hindus, cambojanos, nepaleses e russos. O autor agrega aos relatos de cada país uma farta pesquisa da história, da situação econômica e das peculiaridades dos hábitos e costumes de cada povo.
A descrição é enriquecida por um farto material fotográfico captado também pelo autor ao longo de trinta anos de viagens.
Rota dos Faróis - parte IV

Nossa última saída para região tinha sido em outubro e fazia tempo tentávamos conciliar nossas agendas para um próximo passeio. Quando finalmente marcamos, o tempo não foi muito favorável, mas fomos de qualquer jeito, afinal a fotografia aqui é só parte da diversão.
Começamos a rodar às 17h 30min e chegamos em Mostardas três horas depois. Não sabíamos exatamente para onde ir, então aproveitamos a parada do reabastecimento para definir que seguiríamos pela praia até achar um ponto adequado para o acampamento. Entramos na trilha do talhamar que cruza pelo meio da Lagoa do Peixe e, ao chegar à praia, fomos recebidos com uma maré alta que não recomendava a passagem por ali.

Voltamos ao asfalto e por volta das 22h 30 min achamos um bom ponto para acampar ao lado da estrada que liga Bojuru à praia. Acordamos cedo e saimos em direção à ponta do Bojuru na Lagoa dos Patos, nosso destino principal e local onde estava erguido um dos principais faróis da região. O acesso é fácil e logo chegamos lá. O que existia do farol está restrito a um monte de destroços que acabaram formando uma pequena ilha. Ficamos ali um pouco ouvindo as estórias do pescador que mora ali e voltamos para almoçar, tentando achar algum caminho pelo meio das fazendas e das dunas. À tarde tentamos outras estradas que nos levaram à falsa barra, mas a chuva que caia limitou nosso passeio a um reconhecimento da região e marcação no GPS para futuras voltas.



Com a chuva intermitente, optamos por uma pousada em Tavares, desde que houvesse uma churrasqueira disponível. Como não tínhamos muitas fotos para ver, passamos os vídeos do Art Wolfe no laptop enquanto comíamos.
Às 7h já estávamos em pé e logo depois do café rumamos para a trilha do talhamar. Seguimos pela praia até a barra da Lagoa do Peixe, que nessa época está fechada. O vento forte e frio nos encheu de roupa, mas acabou salvando a manhã, pois rendeu algumas fotos interessantes.




Nosso tempo era curto, afinal o Renato Grimm, que está preparando um livro sobre a região da Lagoa do Peixe, precisava estar às 11h em Mostardas para a missa e romaria do Divino Espírito Santo. Isso mesmo, fomos à missa! Nosso grupo está tão coeso que fomos os cinco para a cidade fazer a cobertura do evento, mesmo que isso estivesse longe dos planos originais. Claro que nossa presença deve ter sido tão comentada quanto a própria romaria, afinal todas aquelas câmeras chamaram a atenção.

Não que essa saída tenha rendido muito fotograficamente, mas estamos decididos a colocar nossas imagens em forma de livro. Ainda estamos estudando como fazê-lo, mas acho que em breve teremos novidades.
Confira aqui as fotos da saída anterior
Rota dos Faróis


Depois de muitos adiamentos, finalmente conseguimos reunir nosso grupo e mais uma vez rumamos ao litoral sul para um pouco de aventura e muitas fotos. Entre nós, passamos a chamar isso como Rota dos Faróis, afinal estamos fotografando e mapeando os mesmos. Foram três dias rodando mais de setecentos quilômetros, boa parte deles na região que vai de Mostardas a Bujuru.
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